Por André BianchiA iniciativa não é inédita, mas é ímpar.
Como o lançamento de um cd de compositores poderia chamar a atenção no meio de uma indústria fonográfica monstruosa, megalomaníaca, interessada muito mais no valor agregado dos artistas do que na música em si?
Chama atenção pela honestidade de sua existência; apenas, mas muito apenas afinal.
Talvez não tenha existido outro momento na história da música em que quem canta seja mais importante do que se canta.
Sempre houve situações em que o público mostrasse predileção por um determinado estilo de interpretação, mas ainda sim havia espaço para as diferenças existirem e coexistirem.
Uma das intérpretes mais conhecidas e admiradas da música brasileira é Elis Regina, uma artista que não compunha só cantava; ficou eternizada interpretando músicas de Ivan Lins, Milton Nascimento, João Bosco, Renato Teixeira, entre outros, músicas estas que em sua voz ganharam um tipo de “versão definitiva”. Mas por trás disso estavam os compositores. Alguns destes compositores já possuíam carreira própria e até reconhecimento artístico e comercial, cantando suas próprias músicas; mas através de interpretes como ela, alguns destes artistas tiveram suas carreiras lançadas para um público maior, trazendo mais sucesso comercial e de crítica.
Lançado oficialmente no dia 19 de outubro de 2008, este CD é o resultado de um encontro promovido pela Secretaria Municipal de Cultura em 2007, no Programa VAI, em que vários compositores se juntaram para trocar arranjos, partituras e idéias, produzido pelo cantor, compositor e violonista Gunnar Vargas.
Vargas fez a direção musical da banda Umojá e tem inúmeras participações em trilhas sonoras para teatro, dança e cinema.
Por se tratar de uma coletânea de novos compositores, o álbum trafega entre estilos diversos.
O CD começa com "Erro Fatal", do rapper e MC Codnome Shill. Um trabalho que se apresenta bastante honesto, sem qualquer conotação depreciativa: um rap instrumental, com pegadas de funk e jazz.
Na sequência, "Sr. Ventanista", um dub de Dan!, multi-instrumentista que compõe, canta, toca baixo e bateria. O dub é uma vertente do reggae que tenta uma aproximação mais profunda com o lado espiritual e mística da cultura rasta, através de sua rítmica hipnótica e mântrica, e isto requer uma “cozinha” (baixo e bateria) de talento.
Fazer dub não é para qualquer um. E quando se trata de produções brasileiras, um dos fatores que mais deixa a desejar é o encaixe rítmico e temático da letra. O tema às vezes não justifica o ritmo, e quando o faz, há uma dificuldade, principalmente cultural, em conseguir extrair das palavras o ritmo sonoro que os jamaicanos, por exemplo, conseguem com primazia e impacto . Neste caso, porém, Dan! consegue formar um conjunto competente entre a sonorização da letra e uma boa cozinha.
A terceira faixa é "Huguera's Groove", uma instrumental de Cláudio Lopes, com forte influência do rock. Uma espécie de interlúdio para o que vem após...
"Alone" é sem dúvida um dos destaques do disco, um tipo de blues rural que traz consigo uma leitura interessante e delicada do gênero. Nesta faixa, Huguera consegue com muita propriedade, mais até do que grande parte das bandas brasileiras que se propõe a retratar o gênero, uma aproximação mais convincente da essência rural do blues norte-americano com o espírito rural acústico brasileiro. Sua reflexão, porém, possui uma conotação mais próxima ao espírito da vida nas periferias urbanas, à gente que largou sua terra tentando uma vida melhor por aqui.
É impossível não perceber em "Vestido Preto", a próxima faixa e outro destaque do álbum, um toque muito próximo ao pretendido pelo grupo Los Hermanos na música “Samba a Dois”; porém, diferentemente do resultado atingido pelo grupo, aqui, Gunnar Vargas, através de uma camada acústica com influências da viola popular, se aproxima mais da essência do samba, enquanto que, por outro lado, parece que a cadência saudosa do samba serve para dar contornos para um tom de melancolia do sujeito urbano contemporâneo. Ou seja, enquanto um possui uma essência branca extraída por uma superfície de música negra, o outro consegue o efeito oposto. Cobertura branca, recheio negro? Parece conversa de bombom!
“O Homem Beringela” faz um belo par na sequência. Um belo dedilhado acústico, mesclando elementos de composição clássica e popular (mais uma vez, sente-se a influência da viola cabocla). E, ao mesmo tempo que se despede, anuncia a vinda de momentos mais festivos: “Um Pífano Diferente”. Com o som de um pífano solene na sua abertura, a música procura mesclar a levada do pandeiro à percussão sintética contemporânea, através dos ritmos nordestinos, com um resultado bem interessante.
“Dia de Vale” dá sequência aos ritmos nordestinos, usando o repente e o maracatu como influências mais acentuadas. Destaque para a finalização delicada dos triângulos.
“Faltei ao Serviço” é a última faixa, e fecha o disco com gosto de despedida de Carnaval, quarta-feira de cinzas. Uma crônica-poema musicalizada, contando o dia em que se faltou no serviço para cair no samba. Antigamente, um gesto de vadiagem; hoje, um possível manifesto contra a opressão da horas impostas pelo ritmo contemporâneo.
E, novamente voltando ao início, por se tratar de um projeto de compositores, Gunnar Vargas escolheu colocar 3 faixas instrumentais, o que indica a sua intenção em mostrar o trabalho de composição musical de instrumentistas, literalmente. O Brasil é sem dúvida um dos primeiros países no mundo quando se fala de qualidade e originalidade, tanto musical quanto de seus instrumentistas. Mas infelizmente a música instrumental sempre foi muito mais apreciada no exterior, com músicos de renome como Airto Moreira, Deodato ou Sérgio Mendes, tentando a sorte fora do mercado brasileiro, onde sem dúvida alcançaram um reconhecimento que provavelmente não conseguiriam aqui.
Esta ousadia se reflete quando pensamos que o formato comercial padrão dos álbuns lançados não permite, via da regra, mais de uma instrumental por disco (isto quando alguma é incluída).
Esta é uma iniciativa que pode passar despercebida do grande mercado, mas deve ser registrada e incentivada, para que a música, não só instrumental, mas a música como um todo, possa hoje ter um território livre das obrigações que o mercado impõe comercialmente, através de projetos, gestos ou lugares onde possa ainda acontecer apenas como música.